A Crise do Império, a União Ibérica e a Restauração

Resumo de Estudo · História · 8.º Ano

A Crise do Império, a União Ibérica e a Restauração

A partir de meados do século XVI, o império português começou a dar sinais de fragilidade. Novos rivais surgiram nos mares, um rei sem herdeiros abriu caminho à União Ibérica, e sessenta anos de domínio espanhol terminaram com uma conspiração que mudou a história de Portugal.

1 A crise do império português

Durante o reinado de D. João III (1521-1557), o império português começou a mostrar os primeiros sinais sérios de desgaste. Manter territórios espalhados por três continentes exigia um esforço financeiro enorme, e a Coroa não conseguia suportá-lo sem recorrer a empréstimos estrangeiros. A esta dificuldade juntavam-se outros problemas que se foram acumulando.

Causas da crise do império

Corrupção Funcionários desviavam produtos e lucros do comércio para proveito próprio
Concorrência muçulmana Os muçulmanos reanimaram a rota do Levante, competindo com Portugal no comércio das especiarias
Naufrágios As viagens de regresso da Índia provocavam perdas humanas e financeiras frequentes
Ataques de corsários Holandeses, ingleses e franceses, apoiados pelos seus reis, saqueavam rotas e territórios portugueses
Dependência externa A falta de investimento na agricultura e na indústria obrigava Portugal a importar bens essenciais
Mare clausum contestado Holanda, Inglaterra e França recusavam aceitar o monopólio ibérico dos mares definido em Tordesilhas

Em 1578, D. Sebastião tentou inverter a situação com uma expedição militar ao Norte de África. A Batalha de Alcácer Quibir foi um desastre: o rei morreu sem deixar descendentes e muitos dos seus soldados foram mortos ou feitos prisioneiros. À crise económica juntou-se agora uma crise política. Sucedeu-lhe o cardeal D. Henrique, já muito idoso e também sem herdeiros. O vazio de poder tornava-se inevitável.

2 A União Ibérica (1581-1640)

Com a morte do cardeal D. Henrique em 1580, disputavam o trono três candidatos, todos netos de D. Manuel I: D. Catarina de Bragança, Filipe II de Espanha e D. António, prior do Crato. Filipe II soube jogar as suas cartas: prometeu à nobreza e à burguesia portuguesas acesso a novas terras, cargos, e ao ouro e prata da América espanhola. Com estes apoios, foi aclamado rei nas Cortes de Tomar de 1581.

Filipe II fez promessas concretas: Portugal manteria a sua língua, as suas leis, a sua moeda e os seus costumes; o império seria administrado apenas por portugueses; os dois países seriam estados independentes unidos sob a mesma coroa. Estas garantias convenceram grande parte dos portugueses a aceitar a União Ibérica, que duraria sessenta anos.

3 A ascensão de novos impérios coloniais

Enquanto Portugal entrava em crise, outros países aproveitavam para construir os seus próprios impérios. A Holanda, a Inglaterra e a França recusavam aceitar o monopólio ibérico dos mares e avançaram para a conquista de territórios e rotas comerciais.

País Como se expandiu
Holanda Criou companhias de comércio que conquistaram pontos estratégicos em África, na Índia e nas Américas; fundou o primeiro banco e a primeira bolsa de valores em Amesterdão
Inglaterra Intensificou ataques de corsários; derrotou a Armada Invencível espanhola em 1588; aprovou o Ato de Navegação em 1651 para controlar o comércio
França Explorou a América do Norte; criou companhias de comércio; atacou territórios ibéricos na América e em África

O jurista holandês Hugo Grócio formalizou esta contestação com o princípio do mare liberum: os mares não podiam pertencer a nenhum país em particular e todos tinham o direito de navegar e comerciar livremente. Era o fim do mare clausum ibérico.

Conceito

Mare liberum: princípio defendido pelo jurista holandês Hugo Grócio segundo o qual todos os países têm direito à livre navegação e exploração dos mares, em oposição ao mare clausum ibérico.

Companhia de comércio: sociedade constituída por acionistas em que os lucros ou perdas eram proporcionais às ações de cada investidor; permitia financiar expedições comerciais de grande escala.

Bolsa de valores: mercado onde se compravam e vendiam ações de empresas e outros títulos financeiros.

Comércio triangular: comércio realizado no Atlântico entre a Europa, África e América: a Europa exportava produtos manufaturados para África, Africa fornecia escravos para a América, e a América enviava matérias-primas para a Europa.

Capitalismo comercial: sistema económico baseado na procura do lucro e no reinvestimento dos ganhos, que floresceu sobretudo na Holanda e na Inglaterra no século XVII.

4 A crise do domínio espanhol em Portugal

O que começou com promessas rapidamente se transformou em desapontamento. Os sucessores de Filipe II foram incumprindo as condições acordadas em Tomar, e a situação de Portugal foi-se deteriorando ao longo das primeiras décadas do século XVII.

Como Portugal estava unido à Espanha, os seus inimigos passaram a ser também inimigos de Portugal. A Holanda e a Inglaterra, em guerra com os espanhóis, atacaram territórios portugueses em África, no Oriente e no Brasil, prejudicando gravemente o comércio de açúcar, tabaco e escravos. A nobreza portuguesa foi sendo substituída por espanhóis nos cargos da administração. Os portugueses eram recrutados para combater nas guerras espanholas na Europa. E o povo via os seus impostos subir para pagar tudo isso.

Em 1637, a situação explodiu. Em Évora, o povo revoltou-se contra o aumento dos impostos na chamada Revolta do Manuelinho. Os motins alastrassem por todo o país, mas foram reprimidos pelas tropas espanholas. O descontentamento, porém, não desapareceu.

5 A Restauração da independência

No dia 1 de dezembro de 1640, um grupo de nobres, apoiados por populares, atacou o Paço Real em Lisboa e aclamou rei de Portugal D. João, duque de Bragança, com o título de D. João IV. Estava proclamada a Restauração da independência de Portugal, dando início à Dinastia de Bragança.

Conceito

Restauração: movimento que, a 1 de dezembro de 1640, pôs fim ao domínio espanhol em Portugal e restaurou a independência do reino, com a aclamação de D. João IV como rei.

A independência foi proclamada, mas não estava garantida. A Guerra da Restauração entre Portugal e Espanha prolongou-se até 1668, ano em que a Espanha reconheceu finalmente a soberania portuguesa. Portugal tinha recuperado a sua independência depois de sessenta anos sob coroa espanhola.

Linha do Tempo

1578 Batalha de Alcácer Quibir; morte de D. Sebastião sem herdeiros
1581 Cortes de Tomar; Filipe II aclamado rei de Portugal; início da União Ibérica
1588 Derrota da Armada Invencível espanhola pela Inglaterra
1602 Fundação da Companhia Holandesa das Índias Orientais
1609 Hugo Grócio publica o Mare liberum
1637 Revolta do Manuelinho em Évora contra os impostos espanhóis
1 dez. 1640 Restauração da independência; D. João IV aclamado rei de Portugal
1668 Espanha reconhece a independência de Portugal; fim da Guerra da Restauração

Quiz de revisão

Testa os teus conhecimentos

Responde primeiro sem espreitar as soluções!

1. Quais foram as principais causas da crise do império português a partir de meados do século XVI?

A. A falta de navios e a destruição dos portos portugueses pelos muçulmanos

B. A corrupção, os naufrágios, os ataques de corsários, a concorrência muçulmana e a contestação do mare clausum

C. A peste negra e as guerras internas que devastaram Portugal

2. Por que razão grande parte da nobreza e da burguesia portuguesas aceitou a União Ibérica em 1581?

A. Porque Filipe II ameaçou invadir Portugal se não fosse aceite como rei

B. Porque Filipe II prometeu respeitar a soberania portuguesa e abrir o acesso às riquezas do império espanhol

C. Porque D. António, prior do Crato, renunciou voluntariamente ao trono

3. O que defendia o princípio do mare liberum?

A. Que os mares pertenciam a Portugal e a Espanha, conforme o Tratado de Tordesilhas

B. Que todos os países tinham direito à livre navegação e exploração dos mares

C. Que a Holanda tinha o direito exclusivo de navegar no oceano Índico

4. Quais foram as principais consequências do domínio espanhol em Portugal que levaram à Restauração?

A. O aumento da produção agrícola e o enriquecimento do povo português

B. O incumprimento das promessas de Tomar, os ataques aos territórios portugueses, o aumento dos impostos e a substituição de nobres portugueses por espanhóis

C. A perda das rotas do Mediterrâneo para os muçulmanos

5. O que foi a Restauração e quando aconteceu?

A. A assinatura do Tratado de Windsor com a Inglaterra, em 1386

B. A proclamação da independência de Portugal a 1 de dezembro de 1640, com a aclamação de D. João IV

C. A vitória de Portugal na Guerra dos Trinta Anos, em 1648

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